Objeto

 

 

A minha nudez não te parece um problema se eu não tenho:

– rosto

– cabeça

– voz.

 

Eu sou aquela que não pode se revelar, condenada à invisibilidade, clandestina em seu país.

Existindo às escuras, não incomodo – apenas sirvo. Objeto inanimado, mantenho entre minhas pernas o equilibro da família tradicional.

Mas falo, existo, perturbo.

Amedronto o tolo e frágil putanheiro, que faz questão de pontuar que ajo assim por ser uma velha sem nada a perder.

Por que falo daquilo que não pode ser falado.

Todo mundo faz sexo. Mas não pode falar de sexo, não pode falar que cobra por sexo.

Pode falar que paga por sexo, sim. Não é vergonhoso para o cidadão médio ‘bater ponto’ no puteiro.

Mas eu falo que faço, eu faço, mostro a cara. Rio da tua cara.

O que eu faço não é arte. Nem literatura. Não é performance.

Corpos nus sobre lençóis nem tão limpos assim. De quatro, não há elegância que resista.

No fim de tudo, eu só tenho fome.

E acho que ninguém deve viver no escuro.

Não é que eu não tenha nada a perder, é que viver no escuro pra mim seria, no fim das contas, a grande perda.

E tô pouco me fodendo se você não entende por que motivo me exponho desse modo. Me exponho por que não te devo nada, não quero te dever nada.

Me exponho por que eu decido quem sou e quem quero ser. Não peço desculpas se isso te dá medo. Tô pouco me fodendo pro medo que te provoco. E sei que provoco.

São respostas.

“Monique se expõe por que não tem nada a perder”, e tenho.

A liberdade de ser. De existir. Não perco, não abro mão jamais.

São coisas que você já perdeu. Vive às sombras, prisioneiro de uma imagem vacilante. Eu, não, eu não preciso mais disso.

 

 

moniqueprada

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