Dedo no rabo do teu pseudo-transgredir

Eu te leio, tão libertário e sincero nos nossos papos virtuais, mas às vezes o que me pesa é perceber que o teu “transgredir” é bem leve e falso. Uma daquelas falácias tolas que te ajudam a manter o jeitinho descolado e comer volta e meia uma ou outra civil sedenta (daquelas que não te ligam no outro dia por que caem no teu conto de amor livre). Mas tua transgressão vai só até um ponto bem seguro: defende o casamento de pessoas do mesmo sexo, a adoção por dois pais ou duas mães que se amam, a família Doriana versão arco-íris… mas ali ela emperra, como se uma força superior, estúpida e caretésima te barrasse.

Eu te falo então das putas e você me vem com aquelas mesmas desculpas esfarrapadas de sempre e teu salvacionismo barato.

Você basicamente não quer ver seu nome ligado a “isso”, a essas mulheres. Você sabe que elas fazem por que precisam (?), não tem nada contra nem a favor,  mas diz que é uma imoralidade defender que possam trabalhar em paz. Isso tudo do alto da tua moral inabalável de quem nunca fodeu sem amor (ah, vai… conta outra), de quem nunca cedeu ao desejo, de quem nunca meteu sem saber com quem.

O casal-gay-propaganda-da-Gol cumpre na tua vidinha uma função essencial: você está defendendo o amor, não a afetação ou a baixaria das bichas promíscuas. Você pode dizer pros seus pais velhinhos e decrépitos sentados naquele sofazinho de couro empoeirado do apartamentinho classe média no meio da Independência que defende o amor, que as pessoas tem o direito de amar a quem quiserem não importa o sexo, que toda forma de amor vale a pena e todo aquele blablabla puritano que te ensinaram.

Mas não, meu amigo. As pessoas tem é o direito de foder com quem quiserem foder e se tiverem muita, muita sorte no meio dessa aridez toda de almas vazias e corpos quentes talvez encontrem um dia alguém a quem amar por um tempo. O direito  mesmo pelo qual se luta é o de foder com quem se quiser – obviamente se os desejos coincidirem e o “quem se quiser” também te queira. Por tesão, pelo momento ou pela grana.

“Ah, não, por grana, não.” Te apavora quem põe preço no teu prazer. Mexe com teus brios. Não é que ela esteja pondo preço no corpo firme e devasso que você ardentemente deseja, e você sabe disso. Ela pôs um preço é no teu prazer, e é isso que você não pode perdoar. Ela deixa claro que não te deseja ardentemente, “cobro 100 reais, amor”, e você cede ou perde. Ela ardentemente cobra 100 reais de qualquer um que tope pagar o preço, e tu refletes: o que são, afinal de contas, 100 míseros reais por uma trepada? Paga. E sai arrasado, insuportavelmente ferido no no teu orgulho de macho – viril porém não conquistador. Finge acreditar que ela gozou – “ou gozou ou fingiu muito bem”, você vai postar no td (“mas não beijou na boca”, olha que doce: ele quer beijinho – beijinho não tem, ela é malvada e não tem sentimentos).

Bate punheta pra pornô mainstream mas aposto que morre de medo de levar por cima uma bela mijada.

 

 

 

(Esse texto, meu, você também encontra em E se eu fosse puta?, de Amara Moira.)

moniqueprada

1 thought on “Dedo no rabo do teu pseudo-transgredir”

  1. Bom e feliz dia amiga e companheira Monique Prada!
    Bom texto, Parabéns!
    Abraços, Beijos e Saudações de Vida e Luta, Semore!

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